domingo, 27 de abril de 2014

Alta Costura - Raf Simons e Dior 2014



Jamill Barbosa Ferreira - @JAMILLISSIMO - Há 10 anos, a alta costura Dior mostrou assombrosas Anubis com gigantescos vestidos dourados, bolsas e jóias, tudo bem incrementado numa viagem ao Antigo Egito. As mulheres mais elegantes do mundo ainda iam aos desfiles com algum entusiasmo e gastavam uma nota nas produções. Esse foi um dos desfiles de moda mais impressionantes de 2000 até hoje e olha que a inspiração já é bem batida… As músicas nas apresentações da moda criada por Galliano eram basicamente bregas, mas, funcionava. Assim como também funcionava a maquiagem pesada, e a desculpa do “teatro” e tal. A chegada de Raf Simons na Dior foi terrível; a forma como John Galliano foi chutado para fora, por uma infeliz declaração embebida em álcool, marcou a estada de Simons de forma que a presença de Galliano é notada a cada coleção - seja em nível tecnicamente comparativo ou puramente saudosista. A Dior não conseguirá livrar-se dessa marca e Simons está ferrado, literalmente, com o J.G., bem grande, na testa! As coleções de Raf Simons para a alta costura são tão bobas que você imagina estar vendo prêt-à-porter novaiorquino de qualidade e não alta costura. Moda é como culinária, você pode repetir muitas vezes uma única receita, mudando a apresentação, uma ou outra erva, uma fruta… A coisa pode continuar chique, mas, é batida, como o tema do Egito de 10 anos atrás, que Galliano acertou nas mudanças de tempero e apresentação. A coisa também pode ficar bem insossa, se bem que nunca esteve mais na moda a ausência de sal e de açúcar nas dietas mais bacanas do pedaço. Quanta misturada! Então, por pior que seja, a cada desfile, a Dior estilizada por Simons está bem alinhada dentro da arte que é exigida em cada peça de alta costura. Precisamos entender a moda de Simons apenas como um prêt-à-porter chique, mas, trazido para a alta costura, com elementos de luxo: a arte dos bordados e detalhes. Então você me pergunta: “Mas, isso não é suficiente para a moda?” Sim, para a moda, não para a alta costura. Eu separo alta costura de moda de mundo, pois, a maioria dos humanos vivem numa realidade muito diferente da clientela de alta costura desde que essa técnica é feita. O que nos atrai na alta costura é a expressão artística, única, que cada roupa tem. Apesar da arte dos bordados, o resultado visual, causado pela base usada por Simons não tem nada de exclusivo. E esqueçamos o que Karl Lagerfeld disse sobre a alta costura “não tem nada a ver com arte”. Assim como Galliano, Lagerfeld também tem suas infelizes “declarações”. Claro que alta costura tem a ver com arte, senão eu não me interessaria, ou, sendo mais direto, a própria família dona da Chanel não teria comprado todas as casas de bordados famosas de Paris. Mas… Voltando a falar da Dior, os executivos que levaram Simons para a casa de moda devem ser terrivelmente ignorantes em moda ou muito orgulhosos, só isso explicaria a flutuação diante do resultado visualmente chique, sim, mas, desinteressante, enquanto a pose de que “está tudo jóia” se mantém. Algumas coisas devem ser admitidas: Raf Simons na Dior está destruindo a marca. Claro que deve haver muito orgulho, mas, também, muita burrice da casa, que poderia ter convidado Christian Lacroix para o cargo. O que as chiques Carmen Mayrink Veiga, Suzy Menkes e Valerie Steele dirão sobre esse novo ritmo da alta costura cada vez mais aliada a elementos modernos como tecidos tecnológicos e minimalismo visual? Vamos aguardar.

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