terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Alta Costura - O Triste JOHN GALLIANO na Maison Martin Margiela



Jamill Barbosa Ferreira - @JAMILLISSIMO - Algo preocupante está no ar da moda assinada por John Galliano para a Maison Martin Margiela. Enquanto muitos elogiam e mostram o desfile da volta do fashion-designer, ontem em Londres, como algo "muito importante para a moda", eu noto que tudo tem a ver apenas com ele mesmo e, para piorar, ele não é mais o mesmo. Galliano está se auto-policiando, impondo e vislumbrando barreiras de aceitação, sendo freado, humilhado, desorientado. Ele poderia e deveria ser ele mesmo, claro, nada do que ele disse tinha a ver com a moda e o sucesso profissional que ele fez... Eu quase tenho a ilusão de que ele pode tornar-se um Michael Jackson - afastado de tudo e todos - depois do escândalo, ou uma Sarah Ferguson, tendo sempre aquela vontade de voltar a ser o que era antes do tombo, submetendo-se sempre ao mesmo e cruel repertório que envolve perguntas, comparações e julgamentos sobre o "episódio X", o divisor de águas. Como seria bom se Galliano tivesse voltado a moda sem atrair tanta pena e compaixão das pessoas; e que pudesse lançar um website com comentários sobre moda, etc., que escrevesse um livro sobre seu sucesso criativo... Que ele fizesse algo fora da sombra dos outros e longe dessa tempestade de 2011 que até hoje rende, guardada em baldes bem cheios na seca das novidades fashion. Você acha que Karl Lagerfeld seria "essa Brastemp" se não fosse pela confortável sombra da Chanel? Se pensa que sim, mire seu olhar para a Fendi, ele também trabalha lá, e repense nessa coisa de estar debaixo de uma sombra comandada por outras pessoas. Erros acontecem! Hitler não está mais aqui e o álcool, além das más companhias, fizeram com que Galliano entrasse num devaneio que jamais deveria ter custado seu afastamento da Dior. Nada do que ele falou e gritou naquele boteco tem a ver com seu sucesso na moda, na-da, nadinha mesmo. Você quer saber quem realmente está no controle de algo? Observe sobre o quê você não pode comentar/criticar. O mundo separa as pessoas entre as que podem pagar pelos erros alheios e as que apenas erram e erram... Se é para levar à sério o que se diz sob efeito de bebidas e com humor alterado, se ele mandasse as pessoas à 'm...', elas mergulhariam na primeira galeria de esgoto! É um aborrecimento ver pessoas que antes, no final dos desfiles Dior, estilizados pelo Galliano, o cercavam com falsos sorrisos, prontos para ajudá-lo se ele tropeçasse ou enroscasse seu cabelo num brinco barroco de uma cliente bilionária. Terrível ver o sorriso do Sidney Toledano para o Raf Simons, na embriaguez do poder financeiro da Dior, até que o Simons tome uma cachaça e fale absurdos para ser levado à sério, com as palavras carimbadas como verdades absolutas sobre tudo que ele é, fez, fará e faria. As pessoas são perigosas e não tem nada de álcool nisso. Eu não penso que será longa a estadia do Galliano nessa nova casa, pois, simplesmente, a coisa está meio empacada e fria. Imagina-se facilmente o barulho dos sapatos das manequins caminhando naquela passarela, enquanto uma música cafona embalava esse retorno. As pessoas estavam presentes, elogiando, participando, quase como quando queremos que alguém recupere seu caminho de volta para casa. Isso não tem nada a ver com moda, tem a ver com dignidade. Onde está esse "poder" todo da Anna Wintour em apoiar o Galliano quando o assunto é a fortuna e o império da Dior? Estamos mesmo vendo as mãos certas que controlam a moda? Há algo meio óbvio de que o que ele apresentou para Martin Margiela, apesar do máximo de otimismo, está ultrapassado, "over", pobre. A culpa não é dele, é da moda em si. A alta costura não existe mais, as clientes não têm mais interesse e a tendência é adaptar tudo ao prêt-à-porter, até que a alta costura, que atualmente resume-se aos bordados e tecidos mais nobres, se aposente. Sua presença, no final do desfile, revelou algo muito pior: ele está preso nele mesmo, como eu disse no começo. John Galliano é um artista e não pode ser controlado, nem pressionado a manter-se na rédea dos que acreditaram em suas palavras mais bêbadas e atiraram tudo que ele fez no lixo. Está bem que não estou falando de extremos, como se entupir de álcool e falar besteiras num bar, nem de algo pior... Mas, as pessoas pisam no que não lhes serve mais. Alexander McQueen não estaria numa boa se estivesse vivo, pois, a moda que ele fez foi um acontecimento histórico, de um visual revolucionário em passarela, mas, que hoje em dia também estaria fora dos trilhos diante dos modismos, tendências e tudo mais que vai contra o atrevimento dos pêlos púbicos, instalações mirabolantes e armações de titânio com cauda sobre os vestidos. Eu estou falando que as pessoas que conheceram o trabalho do Galliano e o viram agora, de branco, agradecendo na entrada da passarela, perceberam que ele não somente pareceu "clean", mas, está artificial, vazio e triste. Eu torço pelo John Galliano, que é um artista e deveria ser livre; porém, em moda, ele deve partir para a alta tecnologia, o diferencial e a nova revolução com roupas 3D impressas, tecidos de vidro e tudo que lhe colocasse num degrau acima do redemoinho que está bagunçando as marcas, a moda num todo, e que enegreceu tudo que ele e a geração que veio no começo dos anos 90 fizeram em criatividade, atrevimento e show, desde seu primeiro desfile para os ricaços, na mansão de São Schlumberger, em Paris, que era sua amiga e o ajudou. Parabéns, Renzo Rosso (Foto: cumprimentando o estilista, ontem, 12 de janeiro), por dar a Galliano a chance de ter, novamente, amigos de verdade no mundo da moda.

Os vestidos continuam sendo obras de arte, especialmente o primeiro de cima, à esquerda, com uma face construída de conchas e garras de caranguejo, bolsos transparentes - é totalmente surreal. Absolutamente "out" para o ritmo da moda atual. Outros ainda seguem as combinações de tecidos e estilo visual do período na Dior, os pretos são bonitos. Alguns trazem elementos visuais da coleção  Matrix, de 1999 para Dior. Galliano continua um artista para a moda, é uma pena que a moda não seja mais a mesma e esteja desacelerando. O clássico é eterno e, se encararmos a moda do Galliano como arte, também será eterna, mesmo com os esforços da Dior em apagar tudo que John Galliano fez.

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