domingo, 15 de novembro de 2015

Moda - A Dança das Cadeiras


Jamill Barbosa Ferreira - @JAMILLISSIMO - As mudanças no mundo da moda não deveriam ser tão alarmantes, afinal, comercialmente falando, continuaremos vestindo as mesmas entediantes estruturas para um padrão físico que, em larga escala, não sofreu nenhuma evolução/mutação, que alterasse tudo que, basicamente, se entende como roupa comercial. Mas, as rodas estão girando e Raf Simons deixou a Dior... Isso é tão chato, previsível e repetitivo! Alguns acontecimentos futuros estão tão visíveis que não há desculpa para fingir evitá-los. O processo criativo de Simons parecia ser tão terrível, tão sob-pressão, que passei a admirar o resultado de sua alta costura. A Dior sofreu uma completa mudança após a saída de Galliano e é preciso ter muita bagagem e muito gás para manter a máquina em velocidade paralela a tudo que foi jogado sobre o fashion-designer: além da alta costura e prêt-à-porter, havia coleções entre as temporadas e eventos focados nos clientes orientais, indo até eles, por exemplo. Karl Lagerfeld não tem muito esquentamento de cabeça, tendo em vista que ele prefere sempre manter tudo praticamente igual, com algumas mudanças salteadas entre temporadas com 2 ou 4 anos de diferença entre elas. Eu prefiro perceber e acompanhar a arte, sobretudo quando está ligada ao fashion. Diana Vreeland está mais presente do que nunca no cenário mais interessante do mundo fashion, afinal, ela começou a onda de exposições de moda em museus, com toda aquela carga de exageros e personalidade que trouxeram, por exemplo, Iris Apfel como a figura fashion, gráfica, mais interessante que a moda atual está vendo e publicando. E, por favor, não me fale em Anna Dello Russo, ela é tão forçada... A moda deve ser, antes de tudo, um conforto, um prazer. O toque artificial é essencial para qualquer personalidade fashion, mas, não pode ser um fardo. Você vê a Donatella Versace, totalmente plastificada, visualmente artificial, magra e aparentemente fútil, chique e, ao mesmo tempo, confortável consigo mesma e controlando um império comercial. Parece chique jogar o sorvete na lixeira enquanto o arrependimento foi capaz de lembrar da calça para o verão; mas, nada disso vale a pena se não for pelo prazer e conforto e é esse tipo de prazer que está em voga na classificação de quem é quem na sociedade, são as suas escolhas, entre o sorvete e a calça, que começam a definir sua personalidade fútil. Não há nada de errado em ser fútil, desde que isso seja você e desde que você seja muito inteligente dentro de suas limitações impostas pela vida. "Ah, eu prefiro o drama da futilidade; e que todos os sorvetes sejam jogados fora", pode ser muito divertido de escutar, mais ainda se alguém for forte o suficiente para "gritar", em tom suave, o contrário. Quando Vogue Brasil vai se tocar e deixar o Bruno Astuto assumir a primeira fila nos desfiles? É chato vê-lo atrás, escondido, quando na verdade ele conheceu e conseguiu ser amigo de tanta gente top no mundo da moda internacional, como Marisa Berenson - para dizer o mínimo -, que esteve no Brasil a convite da Amsterdam Sauer e ganhou um jantar do Astuto e seu companheiro, Sandro Barros, no Copacabana Palace. Gente, até a Carmen Mayrink Veiga esteve lá! Eu não sei qual o tamanho da determinação das pessoas, mesmo neste mundo que defende o 'estilo coletivo', ou até onde cada pessoa está disposta a ir, até perceber que pode ser melhor ceder o lugar... Raf Simons não demorou tanto para enxergar. Quero um livro feito pelo jornal O Dia com todas as colunas de sábado que a Carmen Mayrink Veiga assinou! Quero o museu de moda da Hildegard Angel! Quero a linda foto dos flamingos posando no cenário da chique Lily Marinho para a Caras e os textos apimentados do Marcio G! Quero um programa do José Gayegos no GNT! Quero rever o Fernando de Barros fechando o Roda Viva com chave de ouro, afirmando, na cara do Versolato, que ele "pelo visto está escondendo muitas coisas aqui"! Quero esquecer a maldade que a Regina Guerreiro fez com o ganso naquele editorial de moda e prefiro acreditar que ela não teria borrifado tinta na ave se soubesse que isso a mataria... Eu detesto maus tratos aos animais e, portanto, prefiro pensar assim para continuar valorizando o talento que ela teve para escrever e produzir conteúdo fotográfico por tantos anos para revistas famosas. O preço que se paga pelas escolhas e pelas atitudes é uma conta alta demais. O mundo singular não deve ter mais espaço na moda, mesmo quando é preciso aceitá-lo para permanecer in. O sexo não é mais tema de nada no mundo das pessoas realmente interessantes, a evolução já as atingiu. Ah, a Nova Era! Como é bom conversar com pessoas menos físicas e mais artificiais, mais livres, únicas! Os tecidos, a ciência, as peles lisas e belas, a futilidade, o porta-retrato com o bilhete do Concorde! Veja, meu amigo, você não tem mais desculpas para não comprar suas camisas Tom Ford, agora é tudo vendido online! Veja, minha amiga, o namorado perfeito não morreu na tragédia do Titanic, ele agora sabe exatamente o que evitar pelo caminho, desde os cabelos muito lisos ou as falsas sardas, por exemplo. Calma, calma! Nada disso vale realmente nada quando somos derrubados à realidade e precisamos ver o bebê gritando em choro, agarrando e comendo uma folha seca de milho, levado aos trancos e barrancos nos braços magros da mãe que só quer correr e ter a chance de entrar na Alemanha... Será mesmo que estamos preparados para a realidade? Cada um de nós está cada vez mais sozinho e isso está acontecendo enquanto o mundo desmorona. Desculpe-me, caro leitor, mas... Quem é mesmo Raf Simons?