terça-feira, 22 de dezembro de 2015

ALTA COSTURA - Na Riqueza ou na Pobreza?

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Jamill Barbosa Ferreira - @JAMILLISSIMO - Por favor, não me fale em solidariedade por ser Natal. Eu realmente penso que isso não faz mais parte de nenhuma criatura viva. Mulheres vão a casamentos religiosos usando decotes gigantescos, fendas, quase nuas, numa descarada e completa expressão de desentendimento comportamental, chutando a etiqueta, o respeito e o protocolo e essas pessoas nem estão aí com o compromisso que deveriam ter umas às outras. Muita coisa mudou depois da I Guerra Mundial, nós sabemos que vem daí, e eu penso que é triste que a coisa tenha desandado, tropeçado, diluído, até que as sociedades não tenham mais espaço para a beleza comportamental, para o girar da roleta que levava ao povo o bom exemplo do vestuário de luxo, joias, do comportamento da elite; e tudo era adaptado para os pobres. Era um sistema que funcionava, apesar de ser tão pouco simpático. Depois, já no meu tempo, eu achava ótimo e revolucionário quando diziam que "a moda da rua estava influenciando a alta costura"... Mas, não era bem assim que a coisa funcionava. Na verdade, a alta costura sempre foi uma roupa de experiência. Não um laboratório para o costureiro ou para a moda de rua, mas, uma forma de levar a fantasia e os sonhos aos ricos. É um tipo de droga bem bacana! A cliente que usa alta costura está dentro de um tema, de uma expressão artística e, dependendo do grau de sensibilidade de cada uma, essa experiência pode ser dramática, fashion ou simplesmente fútil. Ninguém deve se sentir feliz achando que a moda de rua é capaz de alterar o padrão de luxo com o tal devaneio da emborcada da pirâmide de influência... As mulheres chiques e elegantes jamais venderiam a alma ao diabo quando o assunto é moda, elas preferem o conforto da experiência moldada em luxuosos tecidos e joias. É como dedicar um dia para fazer algo que você nunca fez, só para ter a experiência. Não existe nada mais esnobe, diferenciador, isolador, do que a alta costura! Isso vai muito além da moda e dos acessórios. Nada vai discriminar alguém mais do que a alta costura. Desculpe, mas, nós a observamos por puro atrevimento - ela não é feita para nós - e não somos enxergados pelo inacessível mundo do luxo extremo. Isso soa quase religioso e, portanto, é uma margem perigosíssima. Luxo, dinheiro e felicidade. Desde quando dinheiro não é importante? Como os padres não perguntam mais "na riqueza ou na pobreza"? É óbvio que dinheiro interessa - e muito. Se não tivermos dinheiro, teremos uma vida condenada a sonhos impossíveis e exclusões sociais. Isso é tão duro e dramático! Você pode pedir a sua namorada em casamento, mas a sua sensação jamais será completa como a de quem pode dar todos os vestidos, carros, joias para sua mulher... O mundo exige que vivamos dentro de uma cúpula de ilusão que é abastecida pelo dinheiro. E a economia se transformou em algo mais importante do que qualquer outra força natural. No que estamos transformando a humanidade?! Nós nem servimos mais para procriar. As crianças são cada vez mais doentes. Assim como uma meia, o sexo também pode ser comprado. O prazer sexual não representa mais nada além do momento. E duvido que os clientes do sexo deixem de consumi-lo para que o dinheiro que seria usado vá para a caridade. Não, meus amigos, a vida num todo está cada vez mais egoísta e dividida. Você precisa escolher a que grupo pertence e não espere que o problema que martela sua cabeça esteja no seu bairro ou na sua cidade, o porco continua sendo porco mesmo depois de ser levado a uma volta ao mundo. Nós estamos num planeta falido, nós falimos as maiores virtudes humanas dentro de nós mesmos em nome do trabalho, das obrigações e dos sonhos de consumo em grupos. Eu dou muito valor ao trabalho, claro, mas é preciso enxergá-lo como uma extensão do que somos e não somente como uma peça da Economia, por isso é importante o trabalho feito com prazer, e o prazer é essencial na moda. Não posso dizer que Raf Simons teve prazer em estilizar a Dior, por exemplo, pois, ele saiu de cena e isso deixa claro que sua participação foi vaidosa e mecânica, talvez para arrecadar um dinheirinho e investir em seu próprio nome, como uma engrenagem que manteve a casa funcionando enquanto mudava a paisagem. É claro que vou respeitar se a sua opinião é contrária, mas, eu realmente não percebi outro cenário. A exclusão de John Galliano da história da Dior é o mesmo que jogar uma bomba no Louvre... O que interessa no mundo da moda, usual ou fashion, é a arte! Dez anos se passaram desde que este blog foi criado e há 10 anos atrás Galliano mostrou que as ricaças clientes da alta costura poderiam ir aos seus eventos sociais nos castelos, palácios, grandes galerias de arte, vestidas como punks. Foi um dos anos mais fantásticos para a Dior e muitas pessoas passaram a gostar de moda depois que viram as punks de luxo e aquela coleção inspirada em Joana D'Arc. Aquilo foi muito artístico, histórico e de um luxo nababesco. Tudo era tão detalhado e não expressava nenhuma pressão, ninguém se perguntava sobre comprimentos ou cores, pois, era tudo tão óbvio com relação ao tema e as pessoas já estavam se acostumando com o fato da moda simplesmente deixar de ser usual para ser fashion. Ou você estava "in", ou "out"! Como ele foi capaz de levar clientes tão austeras ao mundo punk?! Ainda temos a impressão de que os muito ricos vivem em palácios de açúcar, um mundo encantado onde não há calor ou frio, onde há suavidade, sensibilidade, arte e beleza. Como é bom sonhar e observar jardins. Você sabe exatamente o que não quer? Eu espero que a rigidez linear dos limites impostos pelo dia-a-dia não bloqueie seus sonhos e que todos eles se realizem nesta ou noutra dimensão. Assim, mesmo numa vibe underground, você será top, como merece ser. Cada um de nós deve estar acima de qualquer regra, de qualquer margem, de qualquer sonho e se para haver a transformação completa é necessário dinheiro, que ele venha e que possa ser bem usado pelo mundo e pelos sonhos, para você e para o que ama.